28 de janeiro de 2026

Crianças do Mar - Ensaio de quadriculografia portuguesa


Manga
Kaijū no Kodomo
(Japão), Monthly Ikki, 2005
Daisuke Igarashi 
Estreia em Portugal: Álbum Devir, Outubro de 2024

A obra acompanha Ruka, uma rapariga que, durante as férias de Verão, conhece dois irmãos misteriosos, Umi e Sora, criados em contacto íntimo com o oceano. A partir desse encontro, a narrativa mergulha numa história profundamente poética e simbólica, onde o mar, a vida, a humanidade e o cosmos se entrelaçam, explorando temas como a origem da existência, a ligação entre o ser humano e a natureza e o lugar do homem no universo.

Quadriculografia portuguesa:

[actualizado em 28.02.2026]


Crianças do Mar #4

O universo poético e enigmático de Crianças do Mar, de Daisuke Igarashi, continua a ganhar forma em português com o lançamento do quarto volume da série. A obra, considerada um dos mangás mais sensíveis e visualmente marcantes das últimas décadas, regressa agora às livrarias portuguesas pelas mãos da Editora Devir, que tem vindo a publicar a série de forma regular desde 2024.

Originalmente publicada no Japão entre 2007 e 2011, Crianças do Mar (Kaijū no Kodomo) é composta por cinco volumes e destacou-se desde cedo pela sua abordagem profundamente contemplativa da relação entre o ser humano, a natureza e o oceano. Longe das convenções mais comerciais do mangá, Daisuke Igarashi constrói uma narrativa densa, simbólica e visualmente deslumbrante, onde o mar surge não apenas como cenário, mas como força viva e espiritual.

A edição portuguesa do volume 4 tem lançamento previsto para finais de Janeiro de 2026, dando continuidade ao trabalho de tradução e publicação iniciado pela Devir em Outubro de 2024. Até ao momento, os três primeiros volumes já se encontram disponíveis, permitindo aos leitores acompanhar o percurso de Ruka Azumi, uma jovem que, durante um verão marcado por conflitos pessoais, se cruza com Umi e Sora, dois rapazes misteriosos com uma ligação inexplicável ao oceano e às suas criaturas.

No volume 4, a narrativa acelera e aproxima-se de um ponto de ruptura. O evento principal aproxima-se. A tensão sente-se desde as primeiras páginas: no iate, Anglade recebe o convite, enquanto Kanako e Dede partem em busca de Ruka e Umi. As peças começam finalmente a mover-se em direcção a um confronto inevitável, tanto no plano pessoal como no simbólico.

Este volume aprofunda também os conflitos do passado, levantando questões que ecoam ao longo de toda a obra. O que causou a divergência definitiva entre Jim e Anglade? Entre planos desencontrados e mudanças aceleradas no mar, a narrativa regressa à origem dessa fractura. Tudo começou há seis anos, na Antártida, num momento-chave que ajuda a compreender não só o afastamento entre as personagens, mas também o rumo inquietante que o oceano — e a própria humanidade — parece estar a tomar.

Acompanhando estes acontecimentos, Daisuke Igarashi mantém o seu traço fluido e expressivo, capaz de transmitir emoções, silêncio e grandiosidade natural com uma força rara. A leitura torna-se cada vez mais sensorial e abstrata, exigindo do leitor atenção e disponibilidade para mergulhar num ritmo próprio, distante das estruturas narrativas convencionais.

Com a publicação do quarto volume, Crianças do Mar entra numa fase decisiva e aproxima-se do seu desfecho. Para os leitores portugueses, este lançamento representa não só a continuação de uma história marcante, mas também a confirmação do compromisso da Devir em trazer obras autorais e exigentes para o mercado nacional. Mais do que um simples mangá, Crianças do Mar afirma-se como uma experiência literária e visual profunda, que convida à reflexão sobre a vida, o planeta e o lugar que ocupamos nele.

Crianças do Mar #4, Daisuke Igarashi, Devir, p&b, 192 pp., capa mole, 20€

27 de janeiro de 2026

O regresso de Calvin e Hobbes

A emblemática dupla Calvin & Hobbes — criação do norte-americano Bill Watterson que conquistou leitores em todo o mundo desde a sua estreia em tiras de jornal em 1985 — está de volta às livrarias portuguesas com uma novidade que vai entusiasmar fãs e novos leitores: a reedição de O Ataque dos Demónios da Neve, disponível em Portugal a partir de hoje pela Gradiva

Este volume, originalmente publicado em inglês nos Estados Unidos com o título Attack of the Deranged Mutant Killer Monster Snow Goons pela Andrews McMeel Publishing, surgiu pela primeira vez no mercado norte-americano no início da década de 1990 — em edições que datam de 1992 e que reuniam tiras publicadas entre Junho de 1990 e Abril de 1991. 

A colectânea apresenta algumas das mais divertidas aventuras de Calvin, um miúdo cheio de imaginação, e do seu amigo Hobbes, o tigre de peluche que ganha vida na sua imaginação. Neste volume, o mote são os “demónios da neve” — monstros de neve que se tornam terrivelmente (e hilariantemente) reais nas mãos de Calvin — além de outras peripécias como batalhas de bolas de neve, as desventuras no clube G.R.O.S.S. que exclui meninas, escapadas intergalácticas com o Spaceman Spiff e engenhocas como o Transmogrificador e o Duplicador

A série Calvin & Hobbes continua a encantar pela mistura de humor, filosofia e crítica subtil, traduzindo a magia e o caos da infância em cada página. Com esta reedição, fãs antigos e novos têm mais uma oportunidade de redescobrir ou conhecer este clássico incontornável da banda desenhada.  

Calvin e Hobbes: O Ataque dos Demónios da Neve, 128 pp., p&b, capa mole, 13,99€

24 de janeiro de 2026

História Alegre de Portugal em BD: aprender a rir da nossa História

Há muitas formas de conhecer a História de Portugal, mas poucas são tão eficazes — e tão prazerosas — como História Alegre de Portugal em BD. Nesta obra incontornável, o rigor histórico cruza-se com o humor, a narrativa leve e a expressividade da banda desenhada, criando um livro que continua actual décadas depois da sua primeira edição.

Com ilustrações de Artur Correia (1932–2018) e texto adaptado da obra de Manuel Pinheiro Chagas, este título já vendeu mais de vinte mil exemplares e conheceu várias edições, sinal claro de que continua a conquistar novos leitores. Editado pela Bertrand, é um livro que atravessa gerações, mantendo intacta a sua frescura e capacidade de cativar.

A narrativa é construída em torno de um enquadramento simples e eficaz. João, um antigo mestre-escola, decide contar a História de Portugal a um grupo de habitantes da sua terra, Agualva, ao longo de dez noites. A partir desse pretexto, o leitor é conduzido numa viagem que começa antes da independência nacional e termina no reinado de D. Luís.

Reis, batalhas, intrigas, descobertas e episódios menos conhecidos surgem aqui tratados com ironia, clareza e um humor subtil que nunca desrespeita os factos históricos. O resultado é uma sucessão de episódios vivos e memoráveis, que convidam tanto ao riso como à reflexão.

A obra original de Manuel Pinheiro Chagas, escritor e político português do século XIX, ganha nova vida nesta adaptação para banda desenhada. Longe de ser uma simples transposição, trata-se de uma verdadeira recriação visual, que respeita o espírito do texto e o torna acessível a leitores de todas as idades.

O humor desempenha aqui um papel central: aproxima o leitor da História, desmonta solenidades excessivas e mostra que o passado pode ser contado com leveza sem perder profundidade.

O traço inconfundível de Artur Correia é uma das grandes forças deste livro. Nascido em Lisboa em 1932, foi um dos mais importantes autores de banda desenhada portugueses, com uma carreira marcada pela versatilidade e pela criatividade. Colaborou com publicações emblemáticas como Cavaleiro Andante, Pisca-Pisca, Fungagá da Bicharada ou A Fagulha, deixando uma marca profunda na BD destinada ao público jovem.

Na Bertrand Editora, assinou obras fundamentais como História Alegre de Portugal, Heróis da História de Portugal e a memorável adaptação de O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, mais tarde convertida em animação no seu próprio estúdio.


A partir de 1965, Artur Correia destacou-se também no cinema de animação, conquistando mais de uma dezena de prémios nacionais e internacionais. O reconhecimento no Festival de Cinema de Annecy foi decisivo para a criação do seu estúdio, em 1973. Até ao fim da vida, manteve-se fiel às duas grandes paixões que definiram o seu percurso: a animação e a banda desenhada.

Num tempo em que se discute a melhor forma de ensinar História, História Alegre de Portugal em BD continua a ser um exemplo luminoso. Divertida, pedagógica e visualmente marcante, esta obra prova que o conhecimento não tem de ser pesado para ser sério.

Talvez seja essa a razão pela qual continua a ser reeditada e lida: porque transforma o passado num prazer presente. Um clássico da banda desenhada portuguesa que permanece, merecidamente, sempre actual.

História Alegre de Portugal em BD, Artur Correia, Bertrand Editora, 256 pp., capa mole, cor, 19,90€

22 de janeiro de 2026

Elas #1: Miúda nova

Chega agora ao mercado português o primeiro volume de Elas, série de banda desenhada juvenil que já conquistou mais de um milhão de leitores a nível internacional e que promete marcar uma nova geração de leitores com uma história envolvente, emotiva e profundamente atual. Publicada originalmente em francês sob o título Elles, a obra estreia-se em Portugal com o volume Miúda Nova, abrindo as portas a um universo onde o mistério, a identidade e a aceitação caminham lado a lado.

No centro da narrativa está Ella, uma adolescente que parece encaixar perfeitamente no retrato clássico da “rapariga nova” na escola. Inteligente, espirituosa e carismática, integra-se rapidamente, faz amigos e aparenta ter uma vida normal. Mas essa normalidade é apenas a superfície de uma realidade muito mais complexa.

Ella convive, dentro de si, com cinco personalidades distintas, cada uma com a sua própria identidade, temperamento e até cor de cabelo. Nem sempre cooperantes, estas “outras Elas” tornam o quotidiano da protagonista um verdadeiro desafio, criando tensão constante em torno da possibilidade de o seu segredo ser descoberto. A série explora assim, de forma acessível ao público jovem, temas como a construção da identidade, a convivência com a diferença, a saúde mental e a aceitação de quem somos — mesmo quando isso não se enquadra nos padrões esperados.

A escrita está a cargo de Kid Toussaint, pseudónimo de Thierry Toussaint, um dos nomes mais respeitados da banda desenhada francófona contemporânea. Escritor e tradutor belga, Toussaint é uma figura central do histórico jornal Spirou e da editora Dupuis, tendo assinado diversos sucessos ao longo da sua carreira. O autor é conhecido pela sua capacidade de abordar temas complexos com sensibilidade, humor e clareza, tornando-os acessíveis a leitores jovens sem nunca os simplificar em excesso.

Na vertente visual, Aveline Stokart assume um papel fundamental. O seu traço expressivo e dinâmico dá vida às múltiplas facetas de Ella, distinguindo visualmente cada personalidade e reforçando o impacto emocional da narrativa. A ilustradora, que já colaborou com vários projectos de destaque na BD europeia, consegue equilibrar leveza e intensidade, criando páginas vibrantes que dialogam perfeitamente com o texto. Não é por acaso que Kid Toussaint já colaborou anteriormente com artistas de renome como Miss Prickly, cocriadora de A Incrível Adele, reforçando o prestígio criativo associado à série.

Elas #1: Miúda nova, Kid Toussaint e Aveline Stokart, Bertrand Editora, 96 pp., cor, capa mole, 15,50€ 

20 de janeiro de 2026

“Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes”: um livro ilustrado que dá rosto à emigração portuguesa

A Iguana abre o ano editorial com um lançamento marcado pela memória, pela ternura e pela justiça histórica. Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, de Jorge Pinto, com ilustrações de Julia da Costa, chega hoje às livrarias e propõe um olhar íntimo e colectivo sobre a emigração portuguesa, através da história de uma mulher comum — e, por isso mesmo, extraordinária: a Avó Carmo.

O livro parte de uma declaração simples e profundamente afectiva: “Ando há muitos anos para vos falar da minha avó.” A partir daí, Jorge Pinto — deputado da Assembleia da República e neto — constrói uma narrativa biográfica que ultrapassa o âmbito familiar para se tornar espelho de milhares de histórias semelhantes. Maria do Carmo nasceu numa aldeia do Norte de Portugal, cresceu entre privações, emigrou para França nos anos 1960 e, como tantos outros, viveu entre a promessa do regresso e a dureza do quotidiano longe de casa.

Entre o testemunho pessoal e a memória colectiva, Tamém Digo! retrata uma época decisiva da história contemporânea portuguesa: a emigração em massa, as casas deixadas a meio, os filhos criados entre dois países, os afectos suspensos e os regressos muitas vezes adiados. A escrita de Jorge Pinto é honesta, próxima e contida, recusando o dramatismo fácil para dar lugar a uma emoção que nasce do reconhecimento — o reconhecimento de vidas que raramente entraram nos livros de História.

As ilustrações de Julia da Costa acrescentam uma camada sensível e poética ao texto. Com traço delicado e expressivo, acompanham a narrativa sem a sobrepor, ampliando o silêncio, o trabalho árduo e a dignidade destas vidas anónimas. O resultado é um livro ilustrado que dialoga com leitores de diferentes gerações, capaz de tocar quem viveu a emigração e quem dela apenas herdou as memórias.

Mais do que uma biografia, Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes é uma homenagem às mães e avós que trabalharam até à exaustão, que sonharam pouco mas sentiram muito, e que sustentaram famílias inteiras com o seu esforço invisível. É também um lembrete da urgência de preservar a memória colectiva, sobretudo quando ela pertence aos que nunca tiveram voz pública.

Neste lançamento, a Iguana apresenta um livro que não só celebra a força da memória, como reafirma uma ideia simples e poderosa: é nas vidas anónimas que bate o verdadeiro coração de um povo.\

Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, Julia da Costa e Jorge Pinto, Iguana, 128 pp., cor, capa dura, 19,95€